SEMINARISTA

Blog do ALTAIR DE ALMEIDA COSTA (Tachinha) - Aqui você vai encontar notícias sobre o ENFRADES - Encontro Franciscano de Ex-seminaristas, de Santos Dumont, e de vários outros grupos de ex-seminaristas; da Sociedade Cultural Padre Nereu de Castro Teixeira e do Coral Gregoriano de Belo Horizonte: www.gregoriano.org.br





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sábado, agosto 07, 2004

 
ENTREVISTA DO LEONARDO BOFF: O Frei Cristóvão enviou esta entrevista do Leonardo Boff no jornal O Globo:

O HUMANO MISTÉRIO

Entrevista de Leonardo Boff à jornalista Cecília Costa do Jornal “O Globo”.
Publicada na edição do dia15/05/2004

O GLOBO: Quando sairá seu novo livro sobre São José?

LEONARDO BOFF: Em agosto. É uma pesquisa de vinte anos sobre a vida, a teologia e a significação de São José, que me demandou muito trabalho. Pesquisei grande parte do material em Montreal, cidade que tem a maior biblioteca sobre São José no mundo. Inclusive sermões de Bispos de Ouro Preto e Mariana, de 1700. Lá existe um enorme santuário de São José e ao lado está a biblioteca, um centro de pesquisas onde você encontra textos de todos os séculos.

Ø Por que resolveu se dedicar a São José, figura bíblica misteriosa que costuma ser relegado a segundo plano?

BOFF: Quis pegar o lado não institucional do Cristianismo. O Cristianismo do poder, da hierarquia, é o Cristo, a figura do bispo, do Papa, e São José é o anônimo, não existe na Bíblia nenhuma palavra dita por ele. É preciso que exista lugar na Igreja para o cotidiano, para aquele que não usa as palavras, usa as mãos, trabalha, protege a família, vai para o exílio, com todas as agruras que isso significa. O segundo motivo, estritamente teológico, é que a minha visão do Deus cristão, como Trindade, quer superar a perspectiva ocidental, fragmentada, que vê cada uma das pessoas em separado, Pai, Filho, Espírito Santo, sem ver a relação entre elas. Na realidade, o que existe é uma família divina. Para mim, não é o Filho apenas que encarna, é a família inteira que baixa. O Pai encarna em São José, o Filho em Jesus Cristo e o Espírito Santo em Maria...

Ø O Espírito Santo se torna feminino, então...

BOFF: No hebraico, nos livros orientais, ruah é feminino. Em todas as línguas médio-orientais, o Espírito Santo é feminino.

Ø E a origem das religiões dos Livros está lá. O interessante é que essa falta de figura feminina no Cristianismo cria polêmicas sem fim. No livro “O Código de Da Vinci”, há o resgate da figura de Madalena. Mesmo com toda a adoração medieval por Maria, a trindade não é feminina.

BOFF: É, não há elemento feminino. E a figura de Madalena é importante. Os evangelhos apócrifos, sobretudo o de Madalena e o de Filipe, falam dela como companheira de Jesus. No Brasil, esse evangelho apócrifo de Madalena, traduzido do grego, foi editado pela Vozes. Nele e no evangelho de Filipe, há uma linguagem com a qual a teologia tradicional não está habituada. Os apóstolos e Pedro dizem: “Por que você nos discrimina assim? Gosta mais de Maria Madalena do que de nós? Por que diz coisas a Madalena que não diz a nós?” E Jesus responde: “Não, o amor que tenho por ela tenho por vocês também”. Filipe afirma que Jesus diante dos outros a beijava na boca, demonstrava grande carinho...

Ø Em que versão acredita?

BOFF: Acho que temos que assumir a plena humanidade de Jesus. Como o dogma cristão diz que ele é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, ele viveu a dimensão da afetividade. Só uma cultura que malicia as relações pode ver algum desvio na relação que Jesus teve com o feminino. Acredito que tenha tido uma relação muito aberta com as mulheres. Discípulas o seguiam. Ele era liberalizante. E acho que isso tem que ser apreciado por um Cristianismo que se interesse pela integração humana.

Ø A Igreja nunca aceitará o fim do celibato? Não haveria melhora significativa no tocante às perversões?

BOFF: Melhoraria muito, sim. Humanizaria a Igreja. Só uma Igreja clerical, patriarcal, celibatária e hierárquica vê razões espirituais e práticas para ter um quadro clerical celibatário. Ele se dedica totalmente à instituição. Mas paga um preço alto, o de desumanização e diminuição da credibilidade nas questões referentes à família, à sexualidade e ao afeto.

Ø Há uma ignorância emocional nos padres, uma inexperiência afetiva...

BOFF: É... mas com isso não quero dizer que não existam padres que vivam o celibato de forma profundamente humana. O celibato, originalmente, nasce não de uma ausência de amor, mas de uma superabundância de amor. Mas é preciso saber realizar este amor na comunidade consciente da opção que se fez. De renúncia a uma sexualidade, mas não de renúncia à relação de afeto. Acho que o celibato trouxe à Igreja um enrijecimento em suas relações. Mesmo a Igreja Ortodoxa permite o casamento. Em suas várias versões, grega, russa, exige apenas o celibato dos monges. Entre eles, escolhe os patriarcas, os bispos. Mas os quadros clericais são casados.

Ø Na Igreja Católica, quando exatamente começou o celibato?

BOFF: Sempre existiu como opção, o que seria o correto, opção. Mas a partir do século X, quando se criaram os estados nacionais, as universidades, ele começou a se impor. Antes, a Igreja tinha uma estrutura rural, e o padre tinha filhos para enfrentar o trabalho no campo. Não havia seminários. Os seminários surgem com o Concílio de Trento, em 1500. A criança entrava no seminário com dez a doze anos e era formada na visão eclesiástica. E aí o celibato era imperativo. Havia uma praxe na Igreja latina que determinava que todos os bispos fossem tirados da esfera do celibato. Os religiosos beneditinos, franciscanos e dominicanos eram sempre celibatários. Já para os padres seculares havia a opção. Mas o celibato foi sendo transformado em lei eclesiástica. Só que como lei pode ser mudada. Hoje há..
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Ø Há uma grande discussão sobre isso, não? Saiu agora um livro na Alemanha sobre filhos de padres.

BOFF: Sempre houve filhos de padres. Sob esse Pontificado, a questão do celibato é uma questão fechada. Não está em discussão. Assim como a moral matrimonial e sexual são temas proibidos. Creio que é ruim isso, pois a Igreja como instituição se desmoralizou muito com o homossexualismo. E o pior, com o crime da pedofilia, o abuso de crianças.

Ø Mas vamos a “O Senhor é o meu Pastor”, seu novo livro. Logo no início, menciona o medo brutal que aflige o Rio de Janeiro.

BOFF: Todo texto vem de um contexto, e eu parti do contexto cultural brasileiro e mundial de hoje, da Humanidade ameaçada, de uma cidade vítima da droga e da violência e de uma crise para a qual não se vê saída a curto prazo. A sociedade está insegura, com medo, muitas são as vítimas de assaltos, as mortes. As pessoas sentem que o Estado não garante, a polícia não garante. Ninguém cria um ambiente de cuidado, em que a vida possa ser vivida com leveza. Neste contexto, a oração é uma das fontes de tranqüilização, de entrega. E emerge a figura do Bom Pastor, o salmo 23. Duas imagens poderosas da tradição cristã, o Senhor é o meu Pastor.
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Ø E Jesus é o Bom Pastor.

BOFF: E hospedeiro. Aquele que acolhe com cuidado, oferece uma casa segura, alimenta, dá proteção. Neste contexto faz sentido a pessoa que tem fé se entregar ao Maior. “Eu ando na palma da mão DELE”. E se este ELE não é um qualquer, mas Deus, e quer bem a seus filhos e filhas, “mesmo que eu ande no Vale da Morte, ainda o escuto, estou contigo”.

Ø Mas com total falta de valor em relação à vida, não fica difícil ter fé na oração? Você menciona em seu livro o império do desejo, que leva uma pessoa a matar por um relógio...

BOFF: Esta situação cria a oportunidade para quem tem fé de dar um caráter existencial à fé. Não é só um enunciado doutrinal: “Deus é o meu Pastor”. Temos oportunidade de vivenciar isso em termos de uma confiança objetiva. Entregar-se a alguém que vai nos proteger... sair à rua sem medo. Bem , o segundo ponto é que surge uma chance para aprofundar a fé. Para aquele que não tem fé é aberta uma dimensão espiritual, que numa situação dessas faz sentido. O ser humano não controla todos os fatores, ninguém controla, nós estamos entregues ao arbitrário, ao fortuito, somos uma realidade qüântica, virtual, cheia de possibilidades, inclusive as negativas. Mas posso reforçar pela fé as dimensões positivas, luminosas, que favorecem a vida. A pessoa pode se abrir para esta dimensão. Como disse Bergson. “Por causa de meu trabalho de filósofo, li milhares de livros em minha vida, mas nenhum me consolou tanto como o salmo “O Senhor é o meu Pastor, nada me falta”. Enfim, acho que é uma oportunidade de a pessoa desentranhar de dentro de si a dimensão espiritual, que não é monopólio das religiões. É um dado da antropologia, um dado do ser humano.

Ø O desejo ilimitado, infinito, que nenhum bem material vai satisfazer...

BOFF: Mesmo os pensadores desligados de uma dimensão religiosa, como Freud ou Sartre, analisam o ser humano como desejo infinito. É um dado da existência humana, que cabe ser interpretado, pois o desejo quer realização. Continuamente estamos realizando desejos, mas nenhum tem a marca do infinito. Santo Agostinho, um dos pensadores mais angustiados do Ocidente, afirmou: “Eu só descanso, oh Senhor, enquanto repousar em ti”. Buscamos o obscuro objeto de desejo, o Ser Essencial, a totalidade que pode ser chamada de Deus, infinito, átomo, nirvana, energia.

Ø E Mistério...

BOFF: Mas não é um Mistério que mete medo, é um Mistério que acolhe, marcado pela amorosidade. É isso que o ser humano busca, ser acolhido. Suponho que por trás do ateísmo está a dificuldade de a pessoa ser acolhida como ela é. A profunda percepção da solidão humana.
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Ø A tecnologia e a informática, do seu ponto de vista, estão deixando o homem ainda mais solitário?

BOFF: Há um preço de humanidade a ser pago para a tecnologia, para o mercado que transforma tudo em mercadoria, até a arte, o amor, a religião. As religiões hoje são religiões de mercado. Quem reúne mais gente, o padre Rossi ou Dom Maciel? Isto para mim desnatura a natureza da religião, que vive da gratuidade, da liberdade, da devoção.

Ø Assim como há o bom pastor, há o mau pastor, os políticos que usam e abusam da religião.

BOFF: A tradição dos povos sempre entendeu o rei, o governante, como o pastor. Temos que resgatar esta categoria política que foi resgatada por Gandhi. Ele dizia que fazer política é cuidar do povo, alcançar o bem comum.

Ø Comenta-se que Lula tem dado mais importância ao mercado e ao superávit fiscal que ao social. Ainda tem esperanças em Lula?

BOFF: Acredito no carisma de Lula, que ele seja capaz de fazer mudanças essenciais. Mas vejo um descompasso entre responsabilidade fiscal e social. O que está ganhando é a responsabilidade fiscal. Mas Lula faz um discurso que é um discurso do cuidado, e não no sentido paternalista, do pai que cuida da vida, dos meios da vida. Prometeu ao povo resgatar este sentido ético da política, garantir o trabalho, o salário. E isto não está sendo alcançado. Mas creio que Lula vai se dar conta da seguinte contradição: há 20 anos não crescemos e existe desemprego no Brasil. Alguma coisa está profundamente errada no modelo econômico e social. Tem que ser mudado.

Ø Difícil romper com o FMI e com o Banco Mundial.

BOFF: É difícil, mas Lula foi eleito para ter esta ousadia, a ousadia de dizer aos bancos: “Nós vamos pagar, mas não agora. O banco pode esperar, mas o faminto, não. O desempregado não pode esperar. Eu vou criar um tipo de economia que me permita atender às demandas básicas do povo. A partir disso, é que vamos fazer os pagamentos da dívida interna do sistema financeiro brasileiro e da dívida internacional junto aos bancos credores”. Acho que ele teria cacife para fazer isso.

Ø Acha que se Lula não caminhar neste sentido perderá um momento histórico? Tem de negociar, não? Impossível se isolar.

BOFF: Exatamente. Tem que negociar com os bancos. Não existe possibilidade de ruptura. Eu penso que o outro ponto que daria muita força ao Lula na política externa é dialogar mais com a sociedade civil mundial. A partir de um discurso ético: “Estamos, no Brasil, combatendo a fome e criando uma política social que inclua os excluídos”. A opinião européia está esperando por isso.

Ø Boff, você continua preocupado com a questão da Terra, que chama de Gaia... É maio pagão? Crê em Ceres?

BOFF: Eu sou do Cristianismo originário e popular, que sempre entende a Terra como vida, nunca como algo morto. Algo generoso. O povo entende a Terra como algo com beleza, com vontades. E essa compreensão, a partir de meus contatos sistemáticos com o MST, e que está na cabeça dos que querem a reforma agrária no meio popular. A nível de governos, a compreensão da Terra é de meio de produção, objeto. Os Sem Terra vêem na Terra beleza, o ciclo da natureza. É uma relação viva.

Ø O Abril Sangrento atingiu o Governo quando estava fragilizado com a questão do Waldomiro. Não foi má-fé?

BOFF: Se nós nos darmos conta da gravidade da questão social, se olharmos a crise do povo desempregado, sem terra, e a abundância de terras deste país, a pressão não é descabida. Descabido é o acúmulo de terras improdutivas que o latifúndio mantém. São 1,2 milhão de latifundiários que possuem mais de 60% das terras brasileiras. Esta relação desigual justifica a urgência desta reforma. Eu acho que Lula podia fazer, assim como fez com a Previdência, um projeto no Congresso de extrema urgência, com grande impacto de capitais e legislação ágil. Fazer a reforma agrária de forma definitiva e cabal.

Ø Mas o Governo diz que tem feito muitos assentamentos.

BOFF: Fez. Mas deixou a meio caminho. Distribuiu terra e cesta básica. Mas não deu condições de produção, sementes e preço. As pessoas estão na terra, mas não produzem. Vivem como indigentes. Essa não é uma reforma agrária. Tem que dar a capacidade de produção. Todos os grandes países que fizeram sua revolução industrial passaram pela reforma agrária, México, França, EUA, Itália, e nós não a fizemos. É um passo necessário. E não vale argumentar que nos EUA apenas 2% da população vive no campo, por causa da agricultura intensiva. Essa é uma visão meramente capitalista da produção agrícola. Nossa visão é a integração do homem no campo, com outra compreensão da terra, da relação do ser humano com a natureza. Não é uma relação utilitária. É uma relação humana.

Ø Acha que se o problema da terra fosse resolvido ajudaria a reduzir a violência nas cidades? Ou não há uma ligação tão direta?

BOFF: Acho que tem ligação, sim. Uma reforma agrária bem conduzida desinflaria as cidades. Há uma cultura campesina, as pessoas querem viver no campo. Há uma saudade da terra. E grande parte das pessoas que vive nas periferias das grandes cidades é de cultura rural. Perdem as raízes camponesas e não adquirem raízes urbanas. Há um processo de desidentificação. Uma reforma agrária eficaz desinflaria as cidades, ao assentar as pessoas no campo. Com o povo trabalhando e produzindo na área rural, diminuiria enormemente os índices de violência urbana.


posted by Blog do Tachinha at 11:58 AM

 
TEXTO DO FREI CRISTÓVÃO: Segue abaixo mais um texto do Frei Cristóvão, desta vez comentando sobre o Dia dos Pais.

O DIA DOS PAIS

A arte de ser pai é deixar de ser pai.

Para o dia dos pais pensei em elaborar algumas considerações mais de ordem fenomenológica, bíblico-teológica.
Discordamos do cunho comercial e consumista que se costuma dar e envolver estas comemorações. A própria separação, em datas diferentes, o dia das mães e o dia dos pais, já constitui um sinal desta mentalidade, já que na ordem natural das coisas fica difícil separar a vocação, por conseguinte, a missão de ser pai e de ser mãe. As nossas considerações buscam mostrar que elas se permeiam e se completam.
Fenomenologia: é a própria vida que nos ensina, como sábia mestre. Ser pai, ser mãe, é uma arte. A gente vai aprendendo acertando e errando. Consistiria, antes de tudo, ser presença amorosa, adulta e norteadora. A criança, aliás, todos nós buscamos atender ao sentimento de segurança e de carinho. Mas quando vai conseguindo isso, a criança vai crescendo, amadurecendo, adquirindo sua identidade, sendo mais e mais ela mesma, adulta. Aí a presença paterna e materna vai como que desaparecendo, tornando desnecessária. E quando os filhos se tornam eles mesmos, adultos, os pais já alcançaram uma certa idade e no fim da vida, já envelhecidos, quais novas crianças, serão os filhos que lhes darão segurança e carinho. Tornam-se filhos de seus filhos, e estes pais de seus pais. Isso é mais do que uma ciência, é uma arte.
Bíblia e Teologia: A oração por excelência do cristão é o Pai-Nosso. Nós a recebemos, oficialmente, da Comunidade Cristã, no dia do nosso batismo, dia de nossa inserção, nossa incorporação solene na companhia daqueles que tem o CAMINHO de Jesus de Nazaré como projeto de vida e através dele e sob a inspiração dele comprometemos viver como Homem-Novo, Mulher-Nova e juntos, lutarmos por um MUNDO NOVO, uma SOCIEDADE NOVA, que ele denominou Reino dos Céus, Reino de Deus. Uma sociedade embasada nos valores evangélicos, onde a fraternidade, a solidariedade, a promoção da Vida, da Justiça e o Perdão sejam eixos referenciais e não o mercado, o vil metal, a eficiência, a concorrência. Com Jesus aprendemos a nos relacionar com Deus como Pai e como Mãe e com o próximo como nosso irmão, com a Terra, o Universo como partes integrantes de nós mesmos. Todos os homens e mulheres, as criaturas, a terra, o próprio universo constituem a fraternidade universal, numa real e verdadeira democracia cósmica. Uma verdadeira adelfia, uma adelfocracia. A imagem do pai, para o cristão, é reflexo de um ser maior que Deus. A propósito a palavra Deus vem do sânscrito “dew” que significa luz, brilho e claridade. “Da raiz sânscrita “dew” subjacente à língua grega, latina, germânica, céltica e lituana, proveio Deus e dia. Deus, neste contexto, remete a uma “experiência de luz”(Boff, Leonardo, l999). Os pais são vocacionados a serem luz, claridade para seus filhos, como Deus o é para todos nós.
A experiência que tive, que tenho de meu pai vai condicionar, de certa maneira, a imagem e a experiência que tenho de Deus. Nobre e difícil tarefa, ou melhor dizendo, vocação.
Hoje em dia, com o evoluir das idéias, da própria humanidade, com o avançar da consciência democrática, do movimento feminino, a Teologia vai desvelando outra faceta desta experiência fundante da existência humana. Deus não apenas se nos apresenta, nas Sagradas Escrituras, como Pai, mas também como ternura, amor, cuidado e doação de u’a mãe. Para ilustrar, cito apenas uma passagem de Isaías, capítulo 66, onde o profeta descreve a nova Jerusalém, o novo Israel, o novo povo de Deus: ”alegrem-se com Jerusalém, façam festa com ela, todos que a amam (vers.10). Os seus bebês serão levados no colo, e serão acariciados nos joelhos. Como a mãe consola o seu filho, assim também eu vou consolar vocês; em Jerusalém, vocês serão consolados”(vers.4).
Voltemos, porém, à imagem de Pai, limitando-nos aos Evangelhos. Aí Deus transparece como o doador de todos os bens, de modo especial, do dom da vida. Ele manda o sol e a chuva para os bons e pecadores”. É o Deus da bondade, da acolhida, da misericórdia. As parábolas da misericórdia deixam entrever essa bondade de nosso Pai. As parábolas da moeda perdida, da ovelha desgarrada, do bom samaritano são provas disto. Ligado ao tema da paternidade de Deus a mais bela e expressiva é a parábola do Filho Pródigo, ou melhor dizendo, segundo alguns exegetas, a parábola do Pai Misericordioso. Veja Lucas, capítulo 15. Este pai que acolhe o filho desmiolado e faz um banquete para comemorar seu regresso ao lar não é outro senão o Deus que Jesus nos revela. O Deus de Jesus Cristo é também um Deus-Providência. Uma providência atenta e vigilante: nenhum cabelo cai de nossas cabeças, nem cresce uma célula de nosso corpo, sem que Deus não esteja tomando conta.
Faz comparação com os pássaros que não semeiam, nem recolhem em celeiros. Ora, se Deus cuida deles, quanto mais de nós que somos seus filhos. Vejam a beleza das flores do campo, nem Salomão, com toda a sua sabedoria, foi capaz de se revestir com tanta magnificência, e então, nós, o que não faria em nosso favor? Deus é também Justiça. Não a justiça fria e legalista. Mas uma justiça positiva. Castiga, sim, mas sobretudo, desculpa e sabe premiar. Uma justiça boa, que é mais eqüidade do que justiça, porque é ungida de misericórdia. Uma justiça boa, que não esmaga, mas soergue o pecador. Uma justiça vivificadora.
Senhores pais, vivam tudo isso, junto com suas esposas, no recesso de seus lares e sereis felizes.
Frei Cristóvão Pereira ofm.


posted by Blog do Tachinha at 10:21 AM

sexta-feira, agosto 06, 2004

 
TEXTOS DO ROSÁRIO: Seguem abaixo mais dois textos do Rosário que foram publicados no jornal O Tempo.

70 - Pecado original
Publicado em 26/07/2004
Parabenizo ao colunista José Reis Chaves pelo artigo "Pecado original", publicado em 06/07/2004. Concordo com o que escreveu o colunista: "o dogma do pecado original é um erro grave do cristianismo". Aprendi nos meus 9 anos de seminário que "pecado" é uma ofensa a Deus. Hoje defendo a tese que não existe pecado, pois Deus, que é perfeito em todos os aspectos, nunca foi ofendido, então não pode existir pecados e Deus nada tem para perdoar. Então digo: "Que Deus não perdoa". Quem perdoa está conquistando a perfeição, mas ainda não é perfeito, pois sentiu-se ofendido. Se a justiça humana, que ainda é muito imperfeita, não condena um filho por causa de um crime de seu pai, como aceitar que Deus, o perfeito, o onisciente, o maior exemplo de amor, compreensão e sabedoria poderia cobrar da humanidade a culpa de Adão e Eva? Aprendi pelos teólogos e catequistas que só ficaríamos limpos da nódoa do pecado original pelo batismo. Hoje fico em dúvida se realmente os teólogos ensinam essa doutrina por ignorância ou como meio de trazer o povo sob o domínio e medo de um poder tirânico e cruel. Passei a compreender tudo, mas não conforme o que aprendi e como muitos padres e pastores ainda ensinam. A quem utiliza da Bíblia para defender o "pecado original", seja como dogma ou não, digo: "Também utilizo da Bíblia para negá-lo, como: "Não farás morrer um pai pelo filho, nem um filho pelo pai, mas cada um morrerá pelo seu próprio pecado""( Dt 24,16). Resumindo falo: "A teoria do pecado original é pura mitologia". Agora, após ter aceito e compreendido a reencarnação ou a verdade das vidas sucessivas, entendi também que cada ser humano tem que quitar todas as suas faltas cometidas em vidas passadas. Só, após esse pagamento, poderá ir para planos mais evoluídos: "Em verdade te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo" (Mt 5,26). O apóstolo Paulo foi o grande defensor da culpa de Adão, que levou a humanidade à condenação e também da regeneração de todos pela vitória de Jesus com o sacrifício da cruz. Tudo isso causou um grande sofisma para a missão salvífica de Jesus, pois essa está baseada nos ensinamentos de Jesus e não no sangue derramado na cruz. O que nos salva são os nossos atos de caridade, amor, perdão e vivência com plena fidelidade em tudo e para com todos.
Rosário Américo de Resende, ex-professor da UFMG. Belo Horizonte, 12/07/2004.

71 - Simulação ou enganação
Publicação 06/08/2004

Lendo a seção de Economia de O TEMPO do dia 24/07/2004, onde o Ministro da Fazendo, o Sr. Antônio Palocci, fez comentários e simulações sobre o redutor de R$ 100,00 na base de cálculo do Imposto de Renda. Percebe-se que o poder de enganação do Governo é tão grande, que a gente até se julga incompetente para entender tão grandes e sublimes inteligências na arte de sofisticar ou de enganar mesmo. Como não houve correção na Tabela do Imposto de Renda e as empresas estão dando correções nos salários dos seus empregados, então o Leão, representante do Governo, está abocanhando parte destas correções, que não são aumentos de salários, mas reposições do poder de compra dos mesmos em função da inflação. Para os três exemplos citados pelo Ministro Palocci, digo que para uma correção de 6,62% representou para os dois primeiros casos aumentos de R$ 93,13 (R$ 1.500,00) e R$ 99,34 (R$ 1.600,00). Com o redutor de R$ 100,00 o Leão está apenas deixando de usurpar destes trabalhadores o que eles receberam de correção. Já para o 3º caso (R$ 4.000,00) houve uma correção de R$248,35, aumentando assim a parcela do Leão em R$ 68,29 e agora com o redutor (um "desconto" de R$ 27,50, conforme exposição do Ministro) ele ainda continua perdendo para o Imposto de Renda R$ 40,79. Engane-me que eu gosto! O que assusta mais a gente foi a mirabolante transformação ocorrida nos membros do PT, após a conquista do poder central. O PT agora é o poder e esqueceu do povo, por isso o "risco Brasil" caiu, pois o PT passou a bajular os banqueiros. Quem elevava "risco Brasil" era o próprio PT, mas antes de assumir o poder.
Rosário Américo de Resende, ex-professor da UFMG. Belo Horizonte, 03/07/2004.


posted by Blog do Tachinha at 11:54 PM

quarta-feira, agosto 04, 2004

 
ANIVERSÁRIO: Hoje, dia 4, é aniversário de Dom Frei José Belisário, bispo de Bacanal. Enviamos, via Internet, o nosso abraço e os cumprimentos por esta data. Que Deus o ilumine e lhe conceda muitos anos de vida com saúde, paz e muita luz para continuar o seu belo trabalho em Bacabal e quem sabe, algum dia mais perto das Minas Gerais. Parabéns, Belisário.


posted by Blog do Tachinha at 11:09 AM

 
FORMATURA: O Joaquim França Diniz (Sureco - Quincas - 54/60) está se formando em Direito pela Faculdade Milton Campos. A Missa de Ação de Graças será dia 4/08, às 20 horas, na Igreja de Santo Agostinho e a colação de grau será dia 5, às 20 horas, no Minascentro.
O Joaquim já é formado em Administração de Empresas e agora, aos 60 anos teve ânimo e está se tornando o mais novo advogado da praça.
Parabéns, Joaquim, pela sua disposição em ter enfrentado novamente os bancos escolares e muito sucesso nesta sua nova empreitada.


posted by Blog do Tachinha at 10:03 AM

 
TEXTO DO FREI CRISTÓVÃO: Seguem abaixo mais dois textos enviados pelo Frei Cristóvão:

Somos por vocação agressivos ou solidários?

O "Homo Solidarius" x o "Homo Lupus"

Seria o "Homo" geneticamente um egoísta, agressivo e violento por natureza?
Cesare Lombroso é conhecido no mundo do Direito Criminal "como defensor da tese de que determinadas pessoas seriam por natureza, pela sua configuração genética, destinadas a serem violentas, criminosas! Estaríamos aqui ao nível do determinismo antropológico.
Ora, se a questão se limita ao DNA, no caso de corrupção política, as coisas ficariam bem fácil. Teria a sua solução terapêutica facilitada. Bastaria extirpar uma pequena célula do candidato; e, se o exame da DNA constatasse a propensão genética de que tem tudo para ser um político corrupto, seria denunciado no TRE e sua candidatura seria cassada!
Já Thomas Hobbes, no seu Tratado de Política nos deixou a negativa imagem do Ser Humano como lobo ("Homo hominis lupus"). Neste caso a luta pela sobrevivência seria a pulsão, o dinamismo mais forte que nos condiciona.
Já Freud nos fala do "Eros" como a lei que dirige nossa evolução genético-humana. Seu discípulo rompe com o mestre e defende o princípio do "Fazer-se valer", "Ser-a-si-mesmo", ter o seu "eu", seu "silfo", sua "identidade" como a energia que nos mantém vivos.
Rousseau, racionalista ao extremo, asseverava que o "Homo" nasce bom, solidário; a Sociedade, o Processo Educativo, é que o perverte. Max Sheller contrapõe a tudo isso defendendo o "amor" como elan mais forte de todo o nosso ser e agir. K.Marx, nos seus Escritos, chega à conclusão de que estamos ainda na pré-história, somos como que adolescentes preocupados com a nossa auto-afirmação em busca de sua própria identidade. Somos por demais "estúpidos" ao pensar que só seremos felizes nos apropriando das coisas e dominando, subjugando nossos semelhantes. A razão de ser, a felicidade estariam no ter, no possuir!
A psicologia e antropologia modernas, a biologia, a palenteologia, a sociobiologia vem descartando estas teses e nos apresentam uma imagem mais positiva, humana do "Homo".
Conhecemos a propensão cooperativa de muitos animais: abelhas, golfinhos, pombos, e tantas especies de símios. De modo particular dos nossos ancestrais mais próximos, os orangotangos; e, entre eles se destaca a espécie dos nobobos. A configuração craniana, sua composição neurônica difere da do "Homo" em razão de 2%, 1,5% ou 1%. Normalmente não utilizamos mais do que 10% de nossas potencialidades neurônicas. Os astronautas são submetidos a rigorosos treinamentos para usar 90% delas. O que, de volta ao convivio humano torna-se difícil se adaptar novamente ao nosso convívio dos comuns dos mortais!
É conhecido também que entre as espécies animais a luta para garantir seu espaço vital e a perpetuação de sua própria espécie tem seus limites: quando o rival dá mostra de fragilidade, o mais forte não o elimina. Interrompe o embate, criando condições para que o rival fuja. Somente o "Homo",. em situação de agressão, vai às últimas conseqüências, mata, elimina seu adversário!
Há como que uma solidariedade natural, genética entre as espécies e no interno da própria espécie. No processo evolutivo da espécie há uma linha evolutiva, a "flecha do tempo", na expressão de Theillard de Chardin. No "estofo da matéria", no primórdio de tudo ("Big Bang !?"), lá bem no início e no centro de tudo jazia adormecido o "Homo Solidarius", o “Homo Nobilis". Há um direcionamento, uma programação fontal. Não se aceita mais um “determinismo absoluto" como também um “inderterminismo absoluto”. Ambos são relativos, dando margem para o "princípio da imponderabilidade" e refratando o "princípio da acasionalidade” (Monod).
Na sociologia fala-se de uma "solidariedade mecânica" entre os homens que se manifesta em momentos de risco, de grandes tragédias. Pelo processo educativo, educação política pulamos para uma "solidariedade orgânica", pensada, consciente e solidária.
Temos assim as fases, seja a nível individual como coletivo: conscientização, individuação, personalização, amortização.
Expressões tais como "Civilização do Amor", "Globalização Solidária", "Economia Solidária", "aldeia global" vão ganhando espaço no imaginário cientifico e ganhando formas concretas de organização no nosso cotidiano.
O Personalismo Cristão deu e tem dado sua contribuição valiosa no avançar de uma antropogenese. "Ser é amar e amar nos faz mais enquanto ser, enquanto"Homo". Paulo Freire contrapôs uma "Educação Crítico-Participativa" a uma "Educação Bancária", individualista e concorrente.
Pensando em tudo isso é que encontramos sentido para nossos sonhos, nossas utopias, nossas lutas. Vale a pena e é gratificante participar, conscientemente, no processo evolutivo da criação do "Homo Solidariu", e de um mundo a altura de nosso estatuto de humanos!
Frei Cristóvão Pereira ofm.


98%, 98,5% ou 99% ( 2% - 1,5%.- 1%): faz a diferença!!

Tal seria a diferença entre nós e o nosso ancestral mais próximo, o hominóide, o orangotango bonobo (macho-fêmea). Trata-se, em termos antro-paleontológicos da composição craneana, do complexo neurônico de uma espécie em comparação a outra.
De lá para cá o "Homo Sapiens" dotado de uma consciência reflexiva não pára de se evoluir num processo de autopoeisis ascensional. Já o nosso parente mais próximo...!
Muito se escreveu e muito, ainda se discute sobre este salto qualitativo na evolução de uma vida animal sensitiva para uma vida sensitiva-consciente, vida humana. O salto da biosfera para a noosfera.
Na Antropologia filosófica-cultural procura-se o ponto "x" que distingue o animal do Homem. O que os distingue, portanto, o que os diferencia.
Para Levi Straus a diferença entre um e outro estaria no "cru e no cozido". Nenhum animal é capaz de cozer o que precisa e deseja comer! Já K. Marx via a diferença no trabalho. Quando os nossos antropóides adquiriram a capacidade de produzir o que comiam. De coletores passaram a agricultores. Descobriram na semente dos frutos que comiam a origem desses frutos. Passaram a plantá-las e cultivá-las e assim garantir sua sobrevivência. De nômades tornaram-se sedentários, temos aí a origem da agricultura.
Já outros destacam o uso da linguagem, de símbolos que dão origem a comunicação e a possibilidade de transmitir às novas gerações seu cabedal de conhecimento. Surge a Tradição.
Paleontólogos e antropólogos da atualidade acentuam o surgir de uma consciência reflexa como sinal distintivo de nossa espécie. Nas Ciências das Religiões destaca-se o culto aos mortos (rituais, túmulos, incinerações etc.), sinal de existência e de presença do ser que chamamos de "Homo".
Hoje, dentro de uma metodologia interdisciplinar, de uma nova epistemologia (epistemogenese), creio ser sensato ajuntar todas essas reflexões e contribuições, numa visão holística, onde matéria, vida e espírito (geogenese, biogenese, noosgenese) se implicam e se imbricam, no bojo do processo evolutivo que T. de Chardin chamou de "Flecha do Tempo". A matéria inicial trazia e traz no seu bojo um "estofo", uma "pulsão energética" cujo ápice seria uma "consciência reflexa", isto é, uma consciência consciente de sua consciência "".
E mais: uma consciência amorosa, solidária; portanto, política e ética. O "Homo" tem dentro de si um dinamismo, uma energia-estruturante, ontológica, genética, um direcionamento que o impulsiona para viver uns com os outros, viver na Polis, de modo consciente, solidário e cooperativo. Toda violência, nesta ótica se apresenta como negação daquilo que de mais de profundo nos define e nos distingue. É desumana em si e por si mesma.

Frei Cristóvão Pereira ofm.




posted by Blog do Tachinha at 9:54 AM

domingo, agosto 01, 2004

 
TEXTO DO FREI CRISTÓVÃO: Segue abaixo mais um texto do Frei Cristóvão:

PÃO - TERRA - SONHO E CIDADANIA

Lendo o título a gente poderia perguntar o quê uma coisa tem a ver com a outra? Parece estranho, mas não é! É só pisar no chão da vida de mais 100 milhões de brasileiros, mais de l/3 da população do país, o que representa quase dois brasileiros entre cinco, é gente empobrecida ou em processo de empobrecimento, com o seu poder aquisitivo e conseqüente qualidade de vida em baixa, na sua grande maioria, são excluídos. Não exercem sua cidadania (Política), se sentem distantes de nosso processo produtivo(Economia),limitados ou diminutos consumidores. Não participam de nada ou quase nada do nosso mundo cultural, do desejo e anseio profundo que todos temos de ser cidadão brasileiro, de fazer história, participar, ser cidadão, “ser torcedor do Flamengo e ter uma negra chamada Teresa. Que beleza”!
O pão faz pensar em comida, corpo, saúde, lazer, bem-estar social.
Terra? Ora terra é de onde a gente tira o pão(alimento), para renovar as forças do corpo, equilibrar o consumo de calorias e absorver as vitaminas necessárias e então a gente tem disposição para trabalhar, participar, produzir e amar! É por isso que, na História, a terra foi e é sempre cobiçada, motivo de brigas, conflitos, guerras. Ela está ligada com a Economia e sua posse e distribuição é questão de Política, de Democracia; de Ética enquanto construção de uma morada humana e digna para todos os habitantes desta casa-maior, a Gaia, nossa mãe terra.
Então fica claro que pão e terra estão ligadas com o exercício da cidadania, com a Democracia, com a Ética, com a Reforma Agrária, com Justiça Social. Quando falamos de Democracia não nos referimos à Democracia Liberal, representativa, entre nós mais delegativa do que representativa; mas, ao contrário, à Democracia substantiva, participativa, popular.
E, creio eu, somente quando o povo assumir o Poder, o Estado, sendo senhor daquilo que chamamos de “os nós do Poder”, é que chegaremos lá, teremos Democracia à altura de nosso estatuto de humanos.
Sonho? Sonho é sonho, é utopia, é esperança, é um amanhã melhor. É crer e acreditar que as coisas podem e devem mudar; que a situação que está não é “vontade de Deus”. muito menos fruto de leis inexoráveis(Determinismo Histórico, mas antes, obra nossa, resultado de projeto político-econômico construído pelos homens, portanto,mutável.
Sonho são os anseios, mas os anseios mais profundos que ficam brigando lá dentro de nós e por isso não deixam a gente se acomodar, se amedrontar, perder a esperança de continuar a viver e lutar para dias melhores, não só para nós e nossos filhos; é aquela “dinamis” que ferve em nosso íntimo e não deixa a gente “pendurar as chuteiras”, feirar em si mesmo num individualismo doentio. Seria derrotismo político. Sonho é aquilo que me faz acreditar na Vida, que me mantém de pé, me faz levantar com alma nova e sempre “começar de novo”. É esta energia interior, outros falam em mística, que me deixa sempre acordado e acreditar no homem-novo, na mulher-nova, num mundo novo, numa sociedade diferente, numa maneira nova e alternativa de ser político e de se fazer Política. É acreditar na solidariedade e isso em nível mundial. Esta foi a Boa-Nova que Jesus de Nazaré ressuscitou nos excluídos de seu tempo, pregando, curando, multiplicando os pães e organizando o povo.
Quem não sonha mais está doente psiquicamente, pára de viver, vegeta. Deve ser internado na CTI da esperança.
Então vamos sonhar companheiro(a); mas, “sonhar juntos”, sonhar “em mutirão”, e, então, o sonho torna-se realidade, transforma-se em História.
Frei Cristóvão Pereira ofm.


posted by Blog do Tachinha at 11:31 PM

 
CERVEJINHA: Na cervejinha desta quinta-feira estiveram presentes o Helvécio (Jaburu), Aloísio Tirado (Jaó), Arutana (Careca), Roberto, amigo do Paulo Petermann, Paulo Petermann (Paulo Ébrio), Altair (Tachinha), Antônio Márcio (Bangalão) e o Haroldo Lima que estava de passagem por Belo Horizonte.


TEXTO DO FREI CRISTÓVÃO: Segue abaixo mais um texto enviando pelo Frei Cristóvão:

MARIA - MULHER FORTE

Na tradição lucana é comum atribuir à Maria o cântico do “Magnificat”. (Lc 1, 46-56). Hoje, estudos bíblicos nos asseguram que a Comunidade Lucana era uma comunidade de gente pobre, na qual predominavam as mulheres, execercendo nela vários ministérios; alguns especialistas chegam a afirmar que, inclusive, presidiam a eucaristia. Como eram tempos de perseguição, importava consolá-la, incutí-la coragem, fé e esperança. Para tanto reportava a figuras bíblicas, além de Jesus de Nazaré. Entre elas a pessoa de Maria sobrepuja como referencial e exemplo inspirativo, uma vez que o evangelho de Lucas é considerado o evangelho das mulheres.
O Cântico de Maria, por sua vez, nos remonta à oração de Ana, no Iº livro de Samuel, na qual suplica a Javé um reino justo (1Sm 2,1-10). Podemos conectar estes textos com a narrativa da “Mulher Forte”, a esposa ideal, do livro dos Provérbios (Pr31,10-30).
Contextualizando o Cântico de Maria, colocando-o no centro de nossa realidade latino-americana-caribenho-antilhana, podemos detectar duas categorias de pessoas que Lina Boff chama de “pessoas pobres e oprimidas e massas de pessoas excluídas ou sobrantes”, dentro do processo globalizatório competitivo e excludente. (Vide: Boff, Nina, 622s, 2.000).
Pois bem, eu gostaria de pisar mais no chão de nossa realidade e imaginar como deveria ser Maria hoje, no nosso meio; mais precisamente, vivendo no meio de nosso povo, numa comunidade de periferia de nossas grandes cidades; ou, então, vivendo numa cidade interioriana.
Certamente que faria parte da comunidade local, participando da Ceb e de suas mais variadas promoções. Atuante no Círculo Bíblico para se inteirar e permanecer fiel às tradições dos patriarcas e patriarcas de seu povo e às promessas a eles feitas. Ajudaria na formação do Grupo de Mulheres da paróquia, onde elas se reúnem para discutir seus problemas e aprimorar suas habilidades domésticas. Discutiam também os problemas do bairro e desta discussão surgiu a idéia de fundar a Associação de Bairro para participar na viabilização da solução destes problemas. Certamente que lá estava Maria exercendo seu direito de cidadã. Sendo ela costureira de mão cheia, Maria pensou em reunir suas colegas no ramo e desta reunião surgiu a idéia de fundar o sindicato das costureiras da cidade. Maria foi escolhida para formar uma chapa que, com a benção de seu filho e de seu esposo, deve ter sido vitoriosa!
Vieram as eleições. A discussão na Comunidade, no Círculo Bíblico, no Grupo de Mulheres, na Associação de Bairro, no Sindicato corria solta e por vezes cheirava osso queimado! O grupo mais afinado com Maria resolveu se filiar a um partido comprometido com as causas populares e com um projeto alternativo de conceber e fazer política. Certamente um Partido de origem operária. Deram um passo a mais: resolveram lançar uma candidatura a vereança que fosse da Comunidade com ampla aceitação no bairro. Discutiram e fecharam a questão no sentido de que deveria ser uma candidatura feminina! Dito e feito. E não é que a dita cuja foi eleita!
Seria esta a imagem de Maria que antevejo para os dias de hoje. U’a mulher comprometida, que saberia ligar oração e ação, fé e política; e não uma mulher frágil, doce, chorona, multiplicadora de milagres de origem suspeita, para não dizer, meio forçados!


posted by Blog do Tachinha at 11:09 PM

 

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